domingo, 26 de julho de 2015

Pesquisadores testam relação entre alecrim e boa memória

BBC
26/07/2015 15h48 - Atualizado em 26/07/2015 15h48


Cientistas britânicos tentam descobrir se erva pode realmente ajudar função do cérebro.

Além do óleo essencial, alecrim também é uma das ervas mais populares para temperar alimentos (Foto: BBC)Além do óleo essencial, alecrim também é uma das ervas mais populares para temperar alimentos (Foto: BBC)
Na medicina popular o alecrim é associado há séculos com boa memória. O médico Chris Van Tulleken investigou para a BBC qual pode ser a base científica dessa crença.
Em termos científicos existem diferentes tipos de memória.
Existe a memória passada: o que você aprendeu na escola, por exemplo. Existe a memória presente, usada minuto a minuto. E também a memória futura, ou "lembrar de lembrar".
A memória futura é a mais completa para a maioria de nós. Quando falha, coisas como esquecer de tomar um remédio ou do presente de aniversário do cônjuge acontecem.
Existem estratégias para melhorar a memória passada, porém é mais complicado aprimorar a memória futura - e muitos adorariam ter uma receita.
A medicina, por sua vez, não oferece muitas alternativas. Há remédios que tratam a perda da memória associada à demência, mas não são totalmente eficazes.
Então, quando viajei para Newcastle, no norte da Inglaterra, para falar com o professor Mark Moss na Universidade de Northumbria, estava cético. A equipe de Moss está fazendo experiências para testar se o óleo essencial de alecrim pode ajudar a memória futura.
O alecrim está ligado à memória há centenas de anos.
A personagem Ofélia, na peça Hamlet, de Shakespeare, mostra o alecrim ao irmão, Laertes, e diz que é "para lembrança". Mas, na peça, a personagem fica insana e morre pouco depois dessa cena.
O alecrim é usado em aromaterapia por razões parecidas, mas isso também não pode ser considerado como forte prova científica.
A partir de meu trabalho em comunidades remotas no mundo todo, aprendi que tradições antigas de cura têm muito para nos ensinar e, historicamente, já forneceram muitos remédios úteis.
Mas eu acreditava que aromaterapia estivesse em outra categoria, uma terapia com pouco efeito. Usar cheiros bons para fazer as pessoas se sentirem bem. Ou era isso que eu pensava.
A experiência
Eis como a equipe de pesquisadores da Universidade Northumbria trabalhou: foram recrutados 60 voluntários mais velhos para testar os efeitos não apenas do óleo de alecrim, mas do de lavanda também.
Eles então situaram os voluntários em salas impregnadas com óleo essencial de alecrim, de lavanda ou sem aroma nenhum.
Os participantes recebiam a informação de que estavam testando uma bebida com vitaminas. Qualquer comentário sobre os aromas era descartado e considerado irrelevante, os pesquisadores diziam que o aroma tinha sido "deixado pelo grupo que usou a sala antes".
Os voluntários, eu entre eles, fizemos um teste de memória.
No começo, objetos eram escondidos pela sala em lugares que você teria que se lembrar no final do teste. Então, você fazia uma série de quebra-cabeças com palavras, divertidos, enquanto os pedidos dos responsáveis pelos testes de memória ficavam cada vez mais complicados. No meu caso, duas estudantes, Kamila e Lauren, testavam minha memória.
Eis alguns exemplos: "Você pode me entregar este livro dentro de sete minutos?" ou "Quando você encontrar alguma questão sobre a rainha nas palavras cruzadas, você poderia me lembrar de ligar para a garagem?"
Meus resultados ficaram na média. Esqueci de lembrar à Kamila para ligar para a garagem.
Mas o que a equipe de Mark Moss descobriu com estes testes é notável. Os voluntários na sala com a infusão de alecrim conseguiram, estatísticamente, resultados melhores do que aqueles na sala de controle.
Os da sala com lavanda apresentaram uma queda significativa no desempenho. Lavanda é tradicionalmente associada com sono e sedação.
No sangue
De acordo com os pesquisadores, alguns compostos do óleo de alecrim podem ser responsáveis por mudanças no desempenho da memória. Um deles é chamado de 1,8 cineol. Além de ter um cheiro muito bom (para quem gosta deste tipo de cheiro) ele pode agir da mesma forma que os remédios permitidos para tratar demência, causando um aumento em um neurotransmissor chamado acetilcolina.
Esses compostos fazem isso ao evitar a quebra do neurotransmissor por uma enzima. E isso é muito plausível - inalação é uma das melhores formas de levar drogas para o cérebro.
Quando você consome um remédio via oral, ele pode ser quebrado durante a digestão. Mas a inalação de pequenas moléculas pode passar para a corrente sanguínea e, dali, para o cérebro sem ser quebrado no sistema digestivo.
Moss e sua equipe analisaram amostras de sangue dos voluntários e encontraram traços dos elementos químicos do óleo de alecrim.
As implicações com este tipo de pesquisa são enormes, mas não significa que você precisa passar seus dias cheirando alecrim e suas noites dormindo em um travesseiro de lavanda.
Os efeitos foram detectáveis mas reduzidos, dando uma pista de que é necessário fazer mais pesquisas sobre alguns compostos químicos encontrados em óleos essenciais, o que pode levar à criação de terapias ou aumentar nossa compreensão da memória e do funcionamento do cérebro.
Também é importante lembrar que qualquer remédio com efeito que pode ser medido, mesmo se inalado a partir de um óleo essencial, também pode ter um efeito colateral. Não se pode mexer com a bioquímica do cérebro e esperar resultados simples.
E poderia ser muito bom também se esses estudos também puderem, no futuro, contribuir para a criação de novos remédios para tratamento da demência. O que também restaura parte da credibilidade ao campo da medicina alternativa.
Nós passamos muitos anos criticando os tratamentos alternativos, mas acredito que exista um benefício real ao permitir que as pessoas assumam o controle da própria saúde com tratamentos que as façam sentir melhor, mesmo se não pudermos provar como.

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